Desfolhando a primavera em pedaços desiguais, me vêm Cecília dizendo da vontade de deixar-se cortar por inteira. Não é o receio de esperar outra primavera; é a forma da primavera estar sendo cortada agora em seu auge. Aqui reina um frio quase invernal, em mim e no mundo; as nuvens assumem a forma do meu sangue. Cinza-cimento. Nuvens carregadas de hecatombes amorosas. Aquele cheiro que o vento frio deixa em mim, como se fosse meu próprio soma interno. As lágrimas teimam em não rolar. Talvez a frieza dos meus passos também seja uma forma de me proteger da minha própria natureza sentimental. Vou seguindo abstrata de mim mesma, como se a vida que vivo fosse a vida de outra. E o meu olhar para com ela seja a de um inquisidor que não vacila em sua condenação. Oscilo pelas avenidas do meu querer, ruas escuras e teimosas em suas sinas concretas. Não há espaço para o amor. Não há espaço para tempos eternos perdidos em vão. Somente aquela menina de voz calma, de olhos úmidos com a ressaca do mundo, querendo voltar a ser ávida do prazer, da vida, daquelas loucuras lúcidas lúdicas. Enquanto isso, alguém grita, alguém descontrola, alguém histeria os espassos minutos do tempo em meu nome; e eu sigo vivendo a abstrata idéia de um voltar a caminhar com os passos dos meus pés.
Indi