Poetas Velhos ~ Leminski

Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As almas dividem o espaço.

Desfolhando a primavera em pedaços desiguais, me vêm Cecília dizendo da vontade de deixar-se cortar por inteira. Não é o receio de esperar outra primavera; é a forma da primavera estar sendo cortada agora em seu auge. Aqui reina um frio quase invernal, em mim e no mundo; as nuvens assumem a forma do meu sangue. Cinza-cimento. Nuvens carregadas de hecatombes amorosas. Aquele cheiro que o vento frio deixa em mim, como se fosse meu próprio soma interno. As lágrimas teimam em não rolar. Talvez a frieza dos meus passos também seja uma forma de me proteger da minha própria natureza sentimental. Vou seguindo abstrata de mim mesma, como se a vida que vivo fosse a vida de outra. E o meu olhar para com ela seja a de um inquisidor que não vacila em sua condenação. Oscilo pelas avenidas do meu querer, ruas escuras e teimosas em suas sinas concretas. Não há espaço para o amor. Não há espaço para tempos eternos perdidos em vão. Somente aquela menina de voz calma, de olhos úmidos com a ressaca do mundo, querendo voltar a ser ávida do prazer, da vida, daquelas loucuras lúcidas lúdicas. Enquanto isso, alguém grita, alguém descontrola, alguém histeria os espassos minutos do tempo em meu nome; e eu sigo vivendo a abstrata idéia de um voltar a caminhar com os passos dos meus pés.


Indi

das poesias cruas


Até o prazer dói.
Dói como fruto
Que desponta
Na ponta do galho,
Caju indeciso.
Esse fruto –
O que está para vir
- precisa de sol
minérios
e da roleta de
chuvas e brisas.
Precisa
Do que não está
na língua
dos profetas para
se tornar doce
caju sem travo,
a essência da fruta.
O amor dói.
Dói e reque
Energia, confluência
De sóis, anzóis
Atados ao cordão
Da melancolia.
Anzóis que carecem
Fisgar a essência
Do ouro.
E ser – apenas ser – dói.
Dói porque tudo
É incerto e impreciso.
Nenhuma certeza
Tem rosto
De pedra.
Depois de sábado
Quem garante
Um infalível domingo?
E depois, “Açafrão”:
um ou dois poemas
de sentido oculto
um galho seco
de açafrão
e a necessidade
de ficar
sóbrio sobre as cinzas
- eis todo o meu saber
se me perguntarem
- por quê?
Vou jurar que não sei
Não sou
Desses que sabem
Talvez um dia
Eu tenha pensado
Conhecer os
Pontos cardeais
Fases da lua e
Frases da rua:
Mas o sol
É sábio e ensina
Todos os dias
Sua lição de incerteza
Uma vez
No oco branco
Da noite
Pensei que
O amanhecer me
Traria pássaros
Fáceis
E obedientes
Falhei –
O ferro quente do erro
O ferro fértil do erro”.

Carlos Machado - Do Livro Pássaros de Vidro